Dos pensamentos bem-aventurados, ou a escada para o mito

5 de junho de 2010 Deixe um comentário

A vida imitando a arte, é um espetáculo triste, divertido e belo. Sobretudo quando me ocorre que eu mesmo sou protagonista de uma peça com nuances shakespearianas. Se alguém achar que isso é delírio de uma mente prestes a entrar em erupção catatônica, o que muda é apenas o roteiro, e cria-se assim um paradoxo, ou talvez aquilo que, em programação de computadores, chamamos de recursividade. Não dá pra fugir disso, não dá pra olhar de fora, enquanto se usa do pensamento. E todo pensamento que ousa aprofundar-se em si mesmo, acaba atingindo o abismo do surreal. Uma extrema falta de lógica que só pertence aos domínios da arte, a qual possui, por excelência, a função de desviar-se de qualquer padrão mental, ainda que se utilize destes, como ferramentas. “Bem-aventurado todo pensamento que me leva até você”, já diz a música de Daniel Salve. Quem é você, nesse caso? Você é um símbolo, um mito, um arquétipo. Pode ser a mulher que transforma meus ideais, minha forma de enxergar o mundo, minha falsa noção de mim mesmo e das coisas que eu (achava que) sabia. Uma chave. Aquilo que me faz entrar em contato com meus mais profundos medos e dilemas, arraigados no inconsciente cheio de portas, desfiladeiros subterrâneos, passagens secretas ocultas em diversos pontos do labirinto, levando a descobertas inimagináveis, pontos de luz e esconderijos de monstros. Alguma força irresistível (amor??) me atrai para esse caminho sem volta, o caminho da arte, da loucura, o caminho que não se limita, que percebe o valor do deslumbramento, da surpresa, do inesperado de si mesmo. O pensamento bem-aventurado é como o rio que se dirige ao mar impelido por essa força mágica, e que se perde, que não se orienta mais por suas próprias margens e noções de certo e errado, bem e mal, dia e noite.

Eu tenho medo, mas vou experimentar o teu poder sobre mim. Mais forte que o medo é o magnetismo do teu olhar fixo, querendo dizer algo que não sai em palavras. Querendo me conduzir para algum lugar ignoto, com mais beleza e menos dor, algum lugar que faça a vida (ou mesmo a morte) valer a pena, onde o anseio pela arte régia seja tão intenso quanto o desejo que um corpo tem pelo outro. É mais fácil ansiar pela morte do que pela vida, a verdadeira. Mas a minha sina me leva a um querer diferente, onde há tensão, experiência, medo, êxtase. Onde há sonhos e poesia, lampejos de eternidade. Situações e personagens que nem mesmo Goethe teria previsto em seus momentos literários mais inspirados.

Mesmo que ao final de tudo, TUDO SEJA CONSUMIDO PELO FOGO.

Edimar
04/06/2010


And in the end… the love you take… is equal to the love… you make…
(e no final… o amor que você leva… é igual ao amor… que você faz…)

The Beatles

***

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

(Álvaro de Campos, em “Lisbon Revisited”)


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Um estranho no vazio

24 de maio de 2010 Deixe um comentário


Silêncio e abertura.
O que eu falei sobre abrir as mãos lentamente?
Não sei, não sei…
Meu espírito ainda não assimilou minhas próprias palavras.

Há um abismo muito grande entre mente e coração.
Há uma legião de animais peçonhentos se enfrentando na minha cabeça.
Estou cansado de sentimentos contraditórios.
Mui raramente minha consciência diz: “é tudo um sonho”.
Mui raramente me sobrevém a calma dos seres eternos.
Seres distantes da sombra do mundo, cujo valor não é medido de forma relativa.
Eu sei mas não compreendo.
A resposta do problema não me ajuda se eu não conhecer o processo.
Por ora, tudo o que posso dizer é: “não faz sentido”.

Não faz sentido:
Alegria, números, calor do fogo,
paixões, medos obscuros,
sucessão de dias e noites como um relógio perfeito,
úteros, cemitérios,
barulho, ostentação, vaidade,
direita e esquerda,
operadores de telemarketing,
tardes de domingo,
tardes de sábado,
quaisquer tardes,
Não faz sentido qualquer tipo de opinião própria.
“Embriaga-te sem cessar”, já disse um poeta francês.

Talvez estejamos todos sendo enganados.
E a vida esteja sendo guardada secretamente dentro de algum cálice ou do botão de alguma flor esquisita.
Sim, de fato estamos sendo enganados por seres mitológicos horríveis que roubam o brilho da luz e assumem o controle de nós, marionetes estúpidas que precisam constantemente fabricar luz artificial à custa de muito esforço.
Todas as opiniões são vãs…

Olhe no fundo dos meus olhos. Eu quero que você veja minha alma desnuda, e não aquilo que eu tento mostrar. Quero que você faça amor com minha alma e me liberte deste rastejar interminável. E então, numa comunhão profunda, eu conseguirei calar-me, e deixarei de lado todas essas quimeras existenciais. Teu olhar há de ser como o cálice, como o botão da flor, recolhido no meio do deserto, do qual por longos anos venho tentando fugir caminhando em círculos. Somente a ti poderei dar a resposta que nenhum de nós dois sabia; somente com a tua chave é que a porta se abre. Silenciosamente, com o testemunho da lua e de bilhões de estrelas que queimam sem saber por quê.

Edimar
23/05/2010

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Sol da meia-noite

17 de maio de 2010 Deixe um comentário

Sol da meia-noite

Uma canção distante vem anunciando o novo amanhecer…

Muito já fiz e muito já sonhei…. em mundos paralelos já mergulhei, brincando com a arte das formas e a intuição do que não se vê… alternando entre dor e alegria, duvidando de mim, das cores e da renovação; e depois tornando a acreditar, sentindo a nostalgia de algum sonho perdido, escondido entre sombras, fora do tempo, longe das regras, oculto nas noites de quinta. Sim, é  a tua presença, novo alento, Sol que se mostra no auge da noite. Nossos corações são lapidados pelo calor da entrega, nossas almas se comunicam em palavras inaudíveis, na consciência da própria luz refletida. Tua luz se reflete em mim, e então eu te vejo, com outros olhos. E vejo a vida em seus caprichos, demonstrando o poder maior que nos move e orienta. Superando tempo, espaço, papéis assinados. A vida afirmando que, embora tudo passe, algumas coisas são dignas de se tornarem eternas, na memória da natureza, no Livro dos Dias, nas noites com Sol. Quando a alma, que só mostra uma pequena parte de seus mistérios, fica surpresa de si mesma, temendo sentir coisas que venham a extrapolar os limites do corpo.
De repente, um novo dia. O amor que a tudo abrange. Entre o susto e a alegria, pronuncio teu nome…

Edimar
15/05/2010

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Arco-íris

21 de abril de 2010 Deixe um comentário

She's like a rainbowEla é como um arco-íris.

Tão perto, tão longe.

Parece que dá pra tocar, pra delimitar cada centímetro da curva perfeita, até atingir o segredo oculto no final.

O ouro guardado por criaturas mágicas está logo ali onde a vista alcança mas as mãos, não.

O brilho que reluz é muito pouco diante do brilho latente, que não se mostra.

As cores são reais, e só de longe consigo vê-las. Mas preciso estar perto para sentir a conexão vital do sol e da água. Sentir as cores de olhos fechados, num caleidoscópio sem lógica, como eles disseram.

De repente, se desvanece… ponteiros voltam a girar, planetas também, a lúcida claridade do meio-dia invade a sala de estar… e de novo, e de novo… até que algumas gotas de percepção tornem a cair sobre nossos telhados iluminados e a seqüência de cores se forme, mais uma vez, naquela imagem distante e agradável aos meus olhos. E eu sigo o caminho que leva ao mistério; meu corpo tem suas maneiras de pressenti-lo, e de transformar-se. Evoca-se um turbilhão de imagens que guiam todo o processo, visando um único fim, que é o de saciar a sede de um amor pagão. Contemplação na distância… e pulsação na presença.

Edimar
20/04/2010

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A Divina Fuga

4 de abril de 2010 Deixe um comentário

Os anjos não têm mais parte comigo, e não adianta eu querê-los de volta por enquanto. Não os vejo, eles não me inspiram, todos os elementais se foram, os gnomos estão escondidos nos recônditos espirituais das plantas e eu sei que não vão se mostrar tão cedo. Talvez só depois que eu desaprender algumas coisas. Depois que eu deixar de erguer troféus imaginários forjados no meu cérebro viciado. Talvez com a velhice, com a decrepitude do corpo, com a visão fraca, mas agora não, agora é momento de esvaziar o cálice. Os anjos nada entendem de sensualismo, ou esqueceram por completo. Eles estão certos nos seus pontos de vista; eles recusam com veemência o vinho que eu ofereço, e ainda assim eu preciso deles. Os anjos são politicamente corretos. Que venham, mas que demorem a chegar… tal como a morte! O cálice está muito cheio ainda. E eu estou certo no meu ponto de vista. Pra quê servem os abismos, afinal? Um quadro é tão mais belo quão maiores forem os seus contrastes. O vermelho exalta o azul que lhe acompanha. Mas a companhia dos anjos, agora, não faria sentido, porque eles precisam honrar a causa que defendem. Ainda que a causa seja uma só, eu preciso negá-la com veemência, três vezes antes do galo cantar. Estar consciente da sombra do mundo não tira o sabor do mel que escorre na ponta da faca. Mais tarde, só mais tarde, todos os anjos vão ter razão. Se farão visíveis as sílfides, nereidas, salamandras, gnomos. Mas agora eu quero a razão pra mim, só pra mim. Eles aceitam e fogem. Enquanto isso eu concateno em meu íntimo os motivos do meu próprio sofrimento programado e afogado em copos de vinho de sabor doce e intenso. Mais um copo esvaziado, mais um troféu erguido no profano altar da existência, novas desilusões que vêm afinar as trombetas para um final dolorosamente apoteótico. Belzebu rege a orquestra. Os anjos menores não me entendem mas sabem que vou me curvar diante deles no final.
Mistério profundo do bem e do mal.

Edimar
03/04/2010


“Pretos, pela manhã, brilhavam teus cabelos
E já os cobre a neve, ao triste fim do dia.
Se não queres em vida achar da morte os gelos,
Ergue a taça a pedir à lua companhia.”

De “O Último Verão de Klingsor” (Hermann Hesse)

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A noite escura da alma – parte II

16 de março de 2010 Deixe um comentário

Estou ausente de mim mesmo, já não sei onde procurar; apenas pressinto um ponto de ruptura. Talvez eu tenha atingido o vácuo que antecede a ultrapassagem, numa analogia com corridas de automóveis. Ou então estou obstruindo o fluxo de energias, o que me deixa estéril para os propósitos do universo. Há apenas esforço, conjecturas, sobrevivência… e viver anestesiado é a pior coisa que existe. Pra me salvar, existe papel e caneta. O show precisa continuar de algum modo, não posso voltar ao útero. E, sim, ainda posso sonhar, ainda tenho algum tempo, acho. Mas o mundo está podre, e prosseguir para o alvo é difícil, é sumamente difícil! E sei que vou ajudar a pagar o preço pela podridão do mundo. Mundo estranho, doente. Ninguém encara a vida. Ninguém a conhece. Mas todos fabricam-na. Deformam-na. Com dinheiro, engarrafam a vida, e vendem-na. Eu estou anestesiado. Não vou brigar com meus superiores. Vou servi-los e vou ser um instrumento de reforço da imagem ilusória em que eles tanto acreditam. Porcos fuçando na lavagem. Não querem saber de pérolas.

O veneno está realmente se infiltrando pelas paredes, e ninguém percebe. E eu, que percebo, não consigo mais gritar. Espero encontrar argumentos para ser perdoado. E quem não anseia por perdão… precisa de perdão? Se eu fosse burro, sofreria menos. Embora talvez não notasse os traços de humanidade ainda presentes em muitos rostos. Máscaras não me enganam, mas eu não sei o que fazer. Talvez incendiar alguma coisa. Ou infligir-me algum tipo de dor física. Onde se esconde o impulso de vida? Na mulher? Na forja de Vulcano? Em algum lugar no meio do inferno?

Existem dois infernos: o bom e o ruim. Inferno bom é fogo alto e crepitante. Inferno ruim é brasa e fumaceira. Sufoca. É quase sem saída.

A sociedade está sufocada. Engessada. Que os bons acordem de seu torpor, se é que ainda há tempo. Mas enquanto houverem operadores de tele-marketing, fica difícil vislumbrar uma saída.

Meros devaneios tolos, chão de giz, Giz que tão grande espaço ocupou em minha mente. Não é que eu queira você; quero apenas nutrir-me de tua inspirada presença física no mundo. Estou desfalcado, cada dia que passa eu sei menos e me esforço mais. Não me esforço pelo texto, nem pela carne, nem pela letra de câmbio. Me mostre a razão do meu esforço. Eu preciso que você me mostre.

Pois nenhuma noite é eterna.

Edimar
14/03/2010



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Tua imagem

10 de fevereiro de 2010 Deixe um comentário

Preciso da tua imagem.

Em sonho, em um quadro ou uma foto; numa viagem onírica ou projeção mental qualquer, eu preciso ver-te pra me acalmar. Enquanto as vozes do mundo fazem barulho, chamam por mim e me vendem a qualquer preço, eu penetro na luz do equilíbrio evocando a ti. Sinto de novo o movimento de tudo; percebo atentamente os detalhes no chão, no ar, nas paredes, nas florações do mundo que se chamam “gente”. E estou magicamente do outro lado, às vezes querendo rir do grande custo que se atribui à vida. Era “isso” a vida? Infeliz de quem responder que sim. A tua imagem me inverte os valores. Consigo sentar-me em qualquer calçada e invejar o cão que descansa no meio da rua, em contato com os paralelepípedos, indiferente ao frenesi dos carros. Ou o pássaro que faz balançar levemente as folhas nas copas das árvores. Pois ele, o pássaro, deve ser guiado por algum mito ancestral que já foi há muito tempo esquecido pelo homo sapiens. O mesmo mito que tento resgatar quando te evoco para embriagar algum dos meus sentidos. E restaurar o tom cômico das tragédias humanas. A dor é impossível, na ausência do tempo; o tempo é impossível quando se ama. E as coisas então ficam engraçadas, mesmo. A transformação do impulso de vida, é a tua imagem que me dá. Junto com aquela vontade insana de mudar o eixo do mundo, trocar as peças do jogo, bagunçar tudo, jogar baldes de tinta colorida nas paredes sisudas do nosso sistema de sobrevivência, de ordem e de “progresso”. A meta verdadeira, eu já conheço. Lembro-me dela quando fecho os olhos. E todas as coisas que preciso, estão ao alcance da minha mão. E é só a tua imagem que me dá isso, ó minha musa, ó luz da minha alma para todo o sempre.

Edimar
10/02/2010

Pino Daeni - Suite Desire

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