“Porque quem gosta de maçã, irá gostar de todas, porque todas são iguais” – Raul Seixas
Será mesmo? Não me parece que todas as maçãs são iguais. Se fossem, seria fácil escolher; aliás, não seria preciso escolher, bastava fechar os olhos e pegar. Branca de Neve também achou que todas as maçãs eram iguais. Vale a pena o contato fatídico? A mordida redentora ou infernal? O risco de perder-se no ventre de Hékate? E por quê alguém sempre nos convida, ainda que por métodos subliminares, a encenar a divina comédia dos tempos modernos?
O problema não é o discípulo sempre ser obrigado a matar seu mestre; o problema é uma consciência terrivelmente precoce dessa sina, o que pode tirar o brilho do espetáculo. E de quem são esses papéis? Depende a natureza da relação que se estabelece. Varia conforme a direção dos holofotes, a reação do público, as perdas e ganhos decorrentes da sinergia que envolve corpos, mentes e almas. Quero gritar: quebrem-se as algemas da ilusão! Dissolvam-se todas as juras de amor! Afastem-se de mim todos os planos e esperanças de quem quer que seja! Como alguém já disse, não há sequer vestígios de mim!
Mas a rainha do Inferno cala meu verbo, e me apresenta uma maçã em cada mão.
Edimar – 26/11
“Até Deus tem um inferno: é o seu amor pelos homens.” – Friedrich Nietzsche

tô mais perdido que cachorro que caiu do caminhão de mudança, mas…
“O fato de todo amor possuir sua profunda tragédia não é motivo para não mais amar!” - Hermann Hesse

Eu não tenho valor nenhum.
Não sou exemplo pra ninguém.
Minha vida é o resultado das maneiras mais estranhas de se pensar
Ou sentir, não sei exatamente
Mas sei que há pouco tempo eu era outro
E das velhas roupas não restou praticamente nada.
Eu conheço a essência
Da camomila que cresce nos campos
Mas estou alheio ao seu contato com a terra.
Ao contato de todas as coisas que interagem entre si
Sem dar por isso,
Renovando os frutos do tempo
Sem delírios de eternidade.
Porém, com a ciência das horas
E o sistema a me distanciar dos princípios originais
Que norteiam a vida humana
(ou pelo menos deveriam)
Divido-me em duas partes:
Aquela que dedica até o último fio de cabelo
Em perpetuar as pinturas do tempo
Numa agonia silenciosa
E aquela que reconhece o próprio fracasso como ser pensante
Preso a um corpo mortal
Mas que tem uma única certeza:
A existência perene dos campos de camomila em algum lugar
Exalando aromas que ultrapassam o tempo de seus frutos
Sonhos que não morrem ao entardecer da vida
Idéias essenciais que sempre estarão lá, pra quem souber ver.
Não fosse pela lembrança dos campos
(a tábua de salvação definitiva)
Talvez a energia me faltasse
Talvez eu já tivesse jogado a toalha
Cansado de minhas próprias tolices.
(mas nem isso seria capaz de mudar o que eu ignoro).
E o que eu ignoro, continua me esperando.
Tem piedade desta miséria, ó Senhor
E renovai todas as florações, a seu tempo.
Edimar – 21/11
“E o fim, é belo e incerto, depende de como você vê
o novo, o credo, a fé que você deposita em você e só.”
O Teatro Mágico

“Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.”
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), em Tabacaria.
* * *
“Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim
ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para quê havemos de ir juntos?”
Álvaro de Campos, em Lisbon Revisited

“Disse Jesus: ‘bem-aventurados sois vós, os solitários e eleitos, porque encontrareis o reino! Porque fostes por ele gerados, a ele retornareis. Em verdade, vos digo: quando uma pessoa se encontrar solitária, estará cheia de luz, mas quando se encontrar dividida, estará cheia de trevas.’ “
Evangelho de Tomé


Eu não quero virar sol, como sugere a música do Capital Inicial. Eu quero chover. A água é meu elemento, me revigora, me completa. A chuva traz harmonia entre o ser e o existir. A chuva de fora incita a chuva de dentro, mas a chuva de dentro… não cai. Demora-se. Relampeja, venta, chega mesmo a persuadir os guardiões do templo, dos portões da vida, que dizem: “é agora!”. Há tempos almejam pela irrigação de seus jardins. Mas não! Grande dilema da nuvem, escura e densa em seu profundo pe(n)sar. Ela resiste enquanto pode, seu pensamento lhe mantém viva, e os jardins, secos. Se ela pudesse ao menos chorar por sua condição… mas isso seria a própria manifestação do milagre; chorar é morrer um pouquinho. Morrer é dançar na chuva como Gene Kelly, brincar com poças d’água, beber da Fonte, da Pedra.
Mas bate aqui um coração, mantendo ritmada e indiferente a vida, e ao mesmo tempo proclamando a urgência da chuva de dentro. Ele intui a necessidade de evitar o erro comum: mecanizar-se em batidas inexpressivas e precursoras do fim, acostumar-se com uma tensão infértil, tensão elétrica sem corrente. A água, no entanto, é o berço original que forma novas consciências, canal por onde flui a energia da vida, é aquela que simboliza o eterno devir.
Cedo ou tarde vai chover, vai ser impossível evitar. Ilusões vão escorrer, realidades virão à tona, vida e morte vão se abraçar como irmãs gêmeas que finalmente se reconhecem. E o brilho da Luz de dentro estará mais nítido, ao refletir-se.
Edimar
17/11/2009

Estou ciente da peculiaridade deste momento. É o caos, a transição entre dois níveis de ser, uma corda bamba sobre um abismo.
Meus ideais de beleza e verdade, um tanto visionários e distantes da realidade do mundo que se degenera, e a conseqüente passividade resultante de uma falta de propósitos específicos nesta corda bamba, parecem corroborar a presença insistente do “Enforcado”, Arcano XII do Tarot, em minha vida.

“Ainda que o sol te fatigue de dia e a lua te entristeça de noite não leves teus pés ao resvalador e nem durmas enquanto montas guarda”.

“Por ora, nada é real”, foi o que me disseram. E quando vai ser? Estou ávido pra saber em que momento da minha vida poderei descansar ao saber que uma pedra é apenas uma pedra, e uma laranja, uma laranja. Mas não, me parece irreversível essa mania de perscrutar a alma dos objetos e dos sujeitos. Ir muito além daquilo que seria, para o profano, um ponto final no assunto. Para mim, são reticências… sempre a dúvida, sempre uma coisa levando à outra, sempre a possibilidade de eu estar sob efeito de algum encantamento, julgamento precipitado, compreensão incompleta. Perdido num ideal holístico sem vislumbre de início ou fim.
Conspiração cósmica? Talvez. Reunião de cúpula dos deuses brincalhões do universo, que me jogaram no oceano que separa a Causa abstrata do efeito concreto, para que eu aprenda a nadar ou então me afogue por completo. Se a correnteza me puxa pra um lado, eu me esforço no sentido oposto, e vou catando máscaras flutuantes e fugindo das conclusões que dizem que uma pedra é uma pedra, e mais do que isso, que o objeto e seu nome são a mesma coisa. Mas algo em mim anseia pelo erro de julgar que as coisas são assim, mesmo, concretas e ponto final. Ligo a TV, vejo o Silvio Santos e ele é concreto; o carnê do baú é real. Desligo, e a vida assume sua aura de mistério. O meu trabalho é real, mas quando menos espero, a correnteza me puxa e os fatos do cotidiano se tornam puros e distantes, desprendidos da concepção que eu lhes dava, então eu fico lúcido, comovido e incrivelmente calmo. O mundo pára e eu desço por uns instantes, e lembro da flor que é só minha, que não é igual a nenhuma outra, e que ninguém vê da mesma forma que eu.
Edimar
10/11/2009
Obs: esse texto, obviamente, é contrário à maneira “real” de se escrever coisas, portanto eu e ele permaneceremos flutuando juntos.
Olhos nos olhos, falta de jeito, chuva constante, ritmo cardíaco inconstante. Ainda assim, beleza, ternura, marcas eternas. Momento que se justifica por si mesmo, que testemunha a grande interrogação da vida, da vida que quer descobrir-se mais doce enquanto flui. No rio da existência, um porto para o coração.
“Circunda-te de rosas, ama, bebe, e cala. O mais é nada.” – Fernando Pessoa
Está sendo duro pra mim, tão somente contar os minutos
Nestas noites de esperança tão incerta
Acompanhado de um intelectualismo semi-árido
Que dá razões a Nietzsche e chora por dentro.
Está sendo duro, reconhecer-me niilista, por vezes
Em que o humor é a válvula de escape, a última opção
A fazer tudo voar pelos ares, um humor amargo
Desdenhando e escarnecendo da tragédia existencial
A única alternativa possível.
Temeroso por meu próprio poder, sigo pisando em ovos
E ninguém sente como eu.
Sigo deslumbrado pela capacidade de interferir tanto
Nas consciências alheias, maleáveis e sensíveis à dor
Enquanto a minha almeja tornar-se poeira cósmica.
Então que virem pó os meus sonhos mal-projetados
Os olhos que foram feitos pra enxergar absurdos
Ordem social, imposições, medos, fragilidades
Paroxismos, explosões de gozo efêmero
E tudo isso junto compõe a minha própria carne
Em conflito com aquele que aqui escreve.
Vontade de falar, de sujeitar-se aos próprios erros
Abrir a caixa de Pandora
Tornar a crer num mundo idealizado pela óptica dos contrários
Impulsionado por desejos bélicos, varonis, ardilosos
Ainda que delirantes
Numa ação consciente de explodir,
Num jeito paroxismal de ser e de lutar por causas inalcançáveis.
Distrair-se de um amor mal-definido
Guardado por conjecturas filosóficas inúteis.
Amor que pressupõe a tragédia de aniquilar vontades próprias
E de partir ao meio qualquer um que lhe sirva de testemunho.
Por melhores que sejam as intenções
E por mais vastos que sejam os caminhos que ele aponta.
Eis o que me resta: o anseio por Buda
O sentir sem desejar
A aniquilação total.
Edimar – 04/11/09
Você está presente, e tudo está bem; a beleza de ser não exige reflexão ou ação. Tua simples presença no mundo é a resposta que alguém precisa. O enigma está na mente de Deus; nas tuas curvas está a solução. Os teus olhos profundos, brilhantes, também questionam, mas a graça do teu corpo muda o sentido das perguntas, liberta-as, deixa-as livres para voar como borboletas diante dos meus olhos. Você responde enquanto existe, enquanto sorri, enquanto busca palavras e realiza-se nelas. Tua confusão me esclarece, tua clareza me enternece, teu azul me confunde, tua respiração me alivia. Devaneio nos labirintos mágicos da tua simetria. Continuo sonhando coisas improváveis, provando sonhos indizíveis, desejando além da razão.
Teu único dever, menina, é seguir teus impulsos e confiar na vida, para que outros se percam ou, quem sabe, se encontrem.
Edimar
01-11
