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Ler poesias ou ler a si mesmo?

Existem autores que jamais conseguiram me atingir e jamais conseguirão. Destes eu mantenho uma distância psicológica permanente, e o mesmo vale para várias pessoas do meu convívio diário. O entendimento nesse caso se dá apenas no nível da interpretação das palavras e frases que estabelecem uma comunicação bilateral, mas em níveis ontológicos permanecemos absolutamente incomunicáveis, como se eu e o interlocutor tívessemos sido criados “cada um por um deus diferente” (grande Quintana!). Manoel Bandeira afirmou categoricamente que “as almas são incomunicáveis”, e isso me parece uma verdade absoluta (quando o seu oposto é tão verdadeiro quanto ela mesma). As almas, enquanto “copos d’água” retirados de um mesmo oceano, sempre conservarão regiões obscuras e impenetráveis a não ser por si mesmas, enquanto as demais poderão no máximo intuir certas realidades como se diante de um espelho mágico. Ao derramar-se novamente no oceano a água destes copos, tudo se torna claro, mas deixam de existir almas individuais e portanto não há comunicação possível.

Descendo um pouco ao nível dos mortais comuns, no meu convívio direto com a literatura e a poesia, encontro também certas obras e autores que me atingem profundamente e atuam como o espelho mágico de minha alma dentro da realidade objetiva do cotidiano. Fernando Pessoa é para mim absolutamente genial desde a primeira frase. Em certas circunstâncias não leio a poesia, mas sim o autor. Ou, melhor que isso: leio a mim mesmo refletido nas linhas e entrelinhas, tradução fiel do que sinto e penso. Constato que acabo por criar um vínculo de amizade e empatia, não pela obra, mas pelo autor, e que independe de distância espacial ou temporal. A mensagem jogada no turbilhão da vida sempre tenciona ser captada por alguém que vibre nos mesmos padrões de freqüência e que tenha passado por experiências análogas ao longo da viagem existencial.

Ao longo dos posts seguintes estarei reproduzindo vários trechos de obras que me marcaram e despertaram algo de estranho em mim. Aqui, como citei Fernando Pessoa, reproduzo abaixo um de seus poemas que veio à superfície da minha memória devido ao meu estado de espírito dos últimos dias.

O amor, quando se revela…

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

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