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Archive for novembro \23\UTC 2008

Nada de novo sob o sol…

23 de novembro de 2008 1 comentário

Escrever é tão inútil quanto qualquer outra coisa, e além disso eu já li de outras fontes tudo aquilo que eu poderia ter escrito, tudo o que eu precisava saber do mundo. O mundo tridimensional é tão pobre e limitado que poucas linhas o desvelam completamente, o resto é redundância. É uma redundância estar sujeito ao “eterno retorno”, ao eterno girar da roda. Todos os livros que falam do além-mundo também são redundantes, não trazem nada de novo. O além-mundo é novidade pra nós; mas as palavras sobre ele, não. Como poderiam as palavras, que são do mundo, traduzir algo que não é?
Não há novidades em se trabalhar todo dia, em se sentir apegos, em desfazer-se deles da pior forma possível, em iludir-se e desiludir-se indefinidamente com as mais variadas formas, cores, cheiros, gostos, notas, que ao final percebe-se que não são perenes, que em breve desaparecem. Sendo que nada mais me resta nesta festa, que já vai chegando ao seu final e cuja banda já pensa em deixar o palco, eu continuo escrevendo.

Há novidades sim, na morte e no amor, esses dois soberanos que não se submetem ao girar da roda, à ação do tempo que engendrou essa sociedade autômata e inacreditavelmente míope. Tais questões, no entanto, fogem ao escopo deste post (e de qualquer outro).

“O mundo é de quem nasce para o conquistar, e não de quem sonha que pode conquistá-lo”…… mas que no entanto fica lendo blogs (ou escrevendo).

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Ler poesias ou ler a si mesmo?

20 de novembro de 2008 Deixe um comentário

Existem autores que jamais conseguiram me atingir e jamais conseguirão. Destes eu mantenho uma distância psicológica permanente, e o mesmo vale para várias pessoas do meu convívio diário. O entendimento nesse caso se dá apenas no nível da interpretação das palavras e frases que estabelecem uma comunicação bilateral, mas em níveis ontológicos permanecemos absolutamente incomunicáveis, como se eu e o interlocutor tívessemos sido criados “cada um por um deus diferente” (grande Quintana!). Manoel Bandeira afirmou categoricamente que “as almas são incomunicáveis”, e isso me parece uma verdade absoluta (quando o seu oposto é tão verdadeiro quanto ela mesma). As almas, enquanto “copos d’água” retirados de um mesmo oceano, sempre conservarão regiões obscuras e impenetráveis a não ser por si mesmas, enquanto as demais poderão no máximo intuir certas realidades como se diante de um espelho mágico. Ao derramar-se novamente no oceano a água destes copos, tudo se torna claro, mas deixam de existir almas individuais e portanto não há comunicação possível.

Descendo um pouco ao nível dos mortais comuns, no meu convívio direto com a literatura e a poesia, encontro também certas obras e autores que me atingem profundamente e atuam como o espelho mágico de minha alma dentro da realidade objetiva do cotidiano. Fernando Pessoa é para mim absolutamente genial desde a primeira frase. Em certas circunstâncias não leio a poesia, mas sim o autor. Ou, melhor que isso: leio a mim mesmo refletido nas linhas e entrelinhas, tradução fiel do que sinto e penso. Constato que acabo por criar um vínculo de amizade e empatia, não pela obra, mas pelo autor, e que independe de distância espacial ou temporal. A mensagem jogada no turbilhão da vida sempre tenciona ser captada por alguém que vibre nos mesmos padrões de freqüência e que tenha passado por experiências análogas ao longo da viagem existencial.

Ao longo dos posts seguintes estarei reproduzindo vários trechos de obras que me marcaram e despertaram algo de estranho em mim. Aqui, como citei Fernando Pessoa, reproduzo abaixo um de seus poemas que veio à superfície da minha memória devido ao meu estado de espírito dos últimos dias.

O amor, quando se revela…

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

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Menos do mesmo

15 de novembro de 2008 Deixe um comentário

O homem sonha com o infinito, mas dificilmente deixa de enxergar pelas estreitas fendas de sua caverna. Vai aos poucos deixando de sentir, e começa a perscrutar infindavelmente as paredes da caverna em busca de novidades, mas elas são as mesmas velharias de sempre, com outras roupagens. O ato de sair da caverna não depende só da vontade do homem, porque não existe vontade sem objetivo. O que buscar quando não se enxerga nada? De nada adianta ao homem forçar sua alma a seguir um propósito definido por sua cabeça – a cabeça do homem não entende patavinas de nada… (“fui até ao campo com grandes propósitos / mas lá encontrei só ervas e árvores / e quando havia gente era igual à outra” - Álvaro de Campos). O coração do homem já conhece, no entanto, o propósito, mas o coração sabe apenas sussurrar, por isso não dá pra competir com uma mente que grita a todo instante e cada vez mais, hipnotizada pela passagem das horas. Tudo fica monótono e descolorido quando o propósito está soterrado sob um monte de entulho. Retirar o entulho é tarefa árdua, mas uma boa dose de amor sublime (e como tudo o que é sublime, também é não-planejado) pode tornar o entulho invisível por alguns instantes. Nestes instantes o homem percebe abismado que a caverna é pequena demais para ele, e que todo o vão conhecimento que ele entalhou nas paredes da caverna serviu apenas para prolongar sua agonia, manter o gênio engarrafado, esconder sua alma de diamante, que ele sequer remotamente sonhava que pudesse ter tal dimensão. Permitir-se sentir o vento, o nonsense dos acontecimentos sem tentar controlar, significa abrir a porta para o desconhecido, e o desconhecido pode ser melhor do que suspeitávamos.

Quando penso na idéia da iluminação espiritual ou de uma epifania momentânea, sempre lembro-me do jogo “The Legend of Zelda: Ocarina of Time”, e do momento em que o personagem Link aprende uma música nova e então olha, espantado, para a flauta que está em suas mãos. Perceber que a magia nasce e se manifesta a partir de diversas melodias diferentes – e todas podendo surgir de um único instrumento físico – é mesmo de deixar cair o queixo de qualquer iniciante no Caminho da Luz.

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Happiness is a warm gun…

9 de novembro de 2008 Deixe um comentário

ontem mesmo uma pessoa me fez uma pergunta que me deixou meio confuso e atônito para responder… a pergunta foi simplesmente: “você é feliz?” Na hora me lembrei do filme “Poder Além da Vida” e da mesma pergunta feita pelo “Sócrates” ao garoto (que eu esqueci o nome agora)… a minha reação foi semelhante pq eu não estava preparado e, convenhamos, uma pergunta não-trivial dessas não combina muito com uma prosaica tarde de trabalho. Na verdade, é o tipo de pergunta em que ambas as respostas, positiva e negativa, podem ser verdadeiras, dependendo do entendimento que o interlocutor dá a esse termo, “felicidade”, e também ao termo “você” (eu? quem sou eu?). Do ponto de vista egocêntrico, não sou feliz, e ninguém o é! Talvez alguém seja perito na arte de enganar a si mesmo e de construir castelos de areia cada vez maiores e mais bem trabalhados, postergando o encontro com a sua nudez existencial! Se “ninguém neste mundo é feliz tendo amado uma vez”, é porque a consciência do amor choca-se com a consciência do efêmero, talvez porque esse mesmo amor não se mostra de maneira muito clara aos nossos olhos, e sempre assume contornos estranhos quando “paira” sobre a dimensão humana e tenta fazer parte do nosso convívio. O amor preso aos grilhões do tempo (e também preso aos grilhões das convenções humanas) jamais terá um final feliz. A mim, particularmente, sempre resta uma ponta de tristeza, mesmo no auge da vitalidade e beleza das coisas passageiras. Mas é uma tristeza mesclada com um sentimento de aceitação, porque não poderia ser diferente. O novo sempre vem, e torna-se velho, e dá lugar ao novo mais uma vez.

No entanto existe sim, felicidade plena, e não estou falando de qualquer realidade extra-física, mas de uma realidade tangível, de algo aqui da Terra. Esta felicidade está presente nas pequenas crianças, e no reino animal, e nos reinos inferiores a ele. Que situação absurda é esta: o homem, ser supremo da Creação, sempre correndo em busca de algo que os animais já possuem! Algo que os animais não precisam buscar, porque se movem na presença de Deus, não vivem para si mesmos. É a feliz e plena inconsciência do Éden.

Minha alma, portanto, minha alma de diamante louco, talvez compartilhe dessa mesma felicidade, mas meu contato com ela é tão fugaz que ainda não tive tempo suficiente para perguntar…

Ah, se a consciência do efêmero não fosse tão presente em mim! William Blake bem conhecia esses dilemas, personificados em Thel, a donzela dos vales de Har. Reproduzo abaixo alguns trechos de sua obra:

“Oh vida de primavera! por que definha o lótus,
Por que definham as crianças da primavera, nascidas apenas para sorrir e perecer?
Ah! Thel é como pálido arco-íris, é como nuvem que parte;
Como reflexo num vidro; como sombras na água;
Como sonhos de crianças, como um sorriso no rosto de uma criança;
Como o arrulho de um pombo; como o efêmero; como música no ar.
Ah! serena possa eu me deitar, e serena pousar minha cabeça,
E serena dormir o sono da morte, e serena ouvir a voz
Dele, que caminha pelo jardim ao anoitecer”.

* * *

“Por que não podem os Ouvidos à própria destruição cerrar-se?
Ou os Olhos brilhantes ao veneno de um sorriso?
Por que estão as Pálpebras providas de setas prontas para o disparo,
Quando há um milhar de guerreiros de tocaia?
Ou Olhos de dons e graças chovendo frutos e moedas de ouro?
Por que a Língua impregnada do mel trazido dos ventos?
Por que os Ouvidos, ferozes sorvedouros para sugar criações?
Por que as Narinas amplas inalando terror, trêmulas, e atemorizadas?
Por que um brando freio no vigoroso jovem ardente?
Por que uma pequena cortina de carne no leito de nosso desejo?”

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da distração (ou terapia) de escrever

9 de novembro de 2008 Deixe um comentário

Muito bem, levando-se em conta que a profundidade de meus pensamentos estão quase me levando ao limiar da loucura, decidi escrever alguma coisa porque é a forma mais barata e rápida de fazer terapia. Concordo com a frase de Samael Aun Weor quando diz que “a forma mais sublime de pensar é o não-pensar”, mas neste caso não poderia haver blog, não poderia haver qualquer tipo de interação humana. Eu até preferiria “refugiar-me em minha solidão” e não sentir a necessidade de escrever coisa alguma, mas tal situação só seria possível se todas as minhas pendências estivessem resolvidas na vida social, se a paz e a harmonia brotassem espontaneamente em mim. Mas o caos interior que venho sentindo me provou o contrário, que procurei me enganar ao longo de vários anos, que procurei esconder minha fragilidade atrás de belas palavras, ao passo que minhas atitudes e minhas reações psicológicas nem sempre corroboraram com tais palavras. Se alguém vai ler, não tem importância; a internet, de qualquer maneira, está cheia de bobagens sem sentido (o meu lado “lobo da estepe” agora está pensando: “e por acaso há algo que faça sentido? A que tipo de sentido exatamente você se refere?”) Felizes são os ignorantes, que não têm a consciência da relatividade.

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