ontem mesmo uma pessoa me fez uma pergunta que me deixou meio confuso e atônito para responder… a pergunta foi simplesmente: “você é feliz?” Na hora me lembrei do filme “Poder Além da Vida” e da mesma pergunta feita pelo “Sócrates” ao garoto (que eu esqueci o nome agora)… a minha reação foi semelhante pq eu não estava preparado e, convenhamos, uma pergunta não-trivial dessas não combina muito com uma prosaica tarde de trabalho. Na verdade, é o tipo de pergunta em que ambas as respostas, positiva e negativa, podem ser verdadeiras, dependendo do entendimento que o interlocutor dá a esse termo, “felicidade”, e também ao termo “você” (eu? quem sou eu?). Do ponto de vista egocêntrico, não sou feliz, e ninguém o é! Talvez alguém seja perito na arte de enganar a si mesmo e de construir castelos de areia cada vez maiores e mais bem trabalhados, postergando o encontro com a sua nudez existencial! Se “ninguém neste mundo é feliz tendo amado uma vez”, é porque a consciência do amor choca-se com a consciência do efêmero, talvez porque esse mesmo amor não se mostra de maneira muito clara aos nossos olhos, e sempre assume contornos estranhos quando “paira” sobre a dimensão humana e tenta fazer parte do nosso convívio. O amor preso aos grilhões do tempo (e também preso aos grilhões das convenções humanas) jamais terá um final feliz. A mim, particularmente, sempre resta uma ponta de tristeza, mesmo no auge da vitalidade e beleza das coisas passageiras. Mas é uma tristeza mesclada com um sentimento de aceitação, porque não poderia ser diferente. O novo sempre vem, e torna-se velho, e dá lugar ao novo mais uma vez.
No entanto existe sim, felicidade plena, e não estou falando de qualquer realidade extra-física, mas de uma realidade tangível, de algo aqui da Terra. Esta felicidade está presente nas pequenas crianças, e no reino animal, e nos reinos inferiores a ele. Que situação absurda é esta: o homem, ser supremo da Creação, sempre correndo em busca de algo que os animais já possuem! Algo que os animais não precisam buscar, porque se movem na presença de Deus, não vivem para si mesmos. É a feliz e plena inconsciência do Éden.
Minha alma, portanto, minha alma de diamante louco, talvez compartilhe dessa mesma felicidade, mas meu contato com ela é tão fugaz que ainda não tive tempo suficiente para perguntar…
Ah, se a consciência do efêmero não fosse tão presente em mim! William Blake bem conhecia esses dilemas, personificados em Thel, a donzela dos vales de Har. Reproduzo abaixo alguns trechos de sua obra:
“Oh vida de primavera! por que definha o lótus,
Por que definham as crianças da primavera, nascidas apenas para sorrir e perecer?
Ah! Thel é como pálido arco-íris, é como nuvem que parte;
Como reflexo num vidro; como sombras na água;
Como sonhos de crianças, como um sorriso no rosto de uma criança;
Como o arrulho de um pombo; como o efêmero; como música no ar.
Ah! serena possa eu me deitar, e serena pousar minha cabeça,
E serena dormir o sono da morte, e serena ouvir a voz
Dele, que caminha pelo jardim ao anoitecer”.
* * *
“Por que não podem os Ouvidos à própria destruição cerrar-se?
Ou os Olhos brilhantes ao veneno de um sorriso?
Por que estão as Pálpebras providas de setas prontas para o disparo,
Quando há um milhar de guerreiros de tocaia?
Ou Olhos de dons e graças chovendo frutos e moedas de ouro?
Por que a Língua impregnada do mel trazido dos ventos?
Por que os Ouvidos, ferozes sorvedouros para sugar criações?
Por que as Narinas amplas inalando terror, trêmulas, e atemorizadas?
Por que um brando freio no vigoroso jovem ardente?
Por que uma pequena cortina de carne no leito de nosso desejo?”